segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Como assim Acabou a água assim de repente?


Por Marta Luciane Fischer

Docente do Programa de Pós-Graduação em Bioética PUCPR



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Seria cômico se não fosse trágico! Nos últimos meses o sudeste tem vivenciado uma situação um tanto atípica, a real falta de água! Todos os dias os noticiários mostram os reservatórios de água vazias, operando com menos de 5% de sua capacidade. De lado a mídia ensina como economizar água e energia elétrica, incentivado pelo aumento das tarifas; nas redes sociais pipocam memes e piadas com a falta de água; e o mercado consumista se aproveita da situação explorando o comércio de água e de alternativas como captadores de água da chuva. Os cidadãos se indignam e se mostram surpresos, enquanto reportagens de 10 anos atrás relembram de obras que já deveriam estar prontas. A bioética se consolidou com o médico Van Rensselaer Potter em 1971 alertando à sociedade a possibilidade de colapso ambiental caso o uso dos recursos naturais não fosse repensado. Já naquela época de plena ascensão das indústrias, ecologistas se posicionavam contra à crença de que os recursos naturais eram infindáveis e que a natureza existia para o desfrute da humanidade. Assim, a exaustão de recursos naturais somada com a poluição gerada exigia uma mudança de paradigma da sociedade e uma visão mais realista para vulnerabilidade da natureza. De uma ética Antropocêntrica o mundo clamava para uma ética Ecocêntrica e pautada no princípio da Responsabilidade exaustivamente trabalhada pelo filósofo Hans Jonas, que insistia que o homem deveria mudar sua atitude com relação ao planeta e que as consequências de suas escolhas deveriam levar em consideração não apenas a si, mas todos os seres vivos, em presentes e futuras gerações. 
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 Dentro do universo da Bioética Ambiental a água juntamente com o aquecimento global são as temáticas mais trabalhadas, pois representam um problema global, complexo e com inúmeros atores e cuja solução deve envolver a colaboração de diferentes áreas do saber e segmentos da sociedade. A eminente “crise da água” é conhecida pela maioria das pessoas, porém parece que é um problema distante que afeta a África, os desertos e no máximo o sertão nordestino. As facilidades do mundo moderno permite abrir uma torneira sem precisar se preocupar de onde a água vem e pra onde vai, gerando atitudes cômodas e que conduzem ao desperdício. Somente em uma situação real de crise, é que as pessoas se conscientizam e passam a mudar de atitude. Inclusive se posicionando agressivamente contra o vizinho que é flagrado desperdiçando água lavando a calçada. Eu me questiono se precisamos de fato chegar no limite para alcançar a compreensão do risco. Atualmente é a água, mas será que somente quando o racionamento de alimentos alcançar as grandes cidades, é que a sociedade ira se dar conta do quanto desperdiça? Será apenas quando houver mais energia, matéria prima e quem sabe até mesmo ar, é que se nos daremos conta das nossas responsabilidades? De fato a humanidade está precisando urgentemente rever seus valores e paradigmas. Não acredito que essa sociedade bem informada e inserida num contexto biopsicosocialeducativo não seja capaz de construir um mundo melhor para todos. Comungo plenamente das ideias de Bauman que mostra que já não é mais possível vivermos em uma sociedade liquida, com relações liquidas, com pessoas liquidas que levam uma existência sem sentido, na busca de se realizar nos produtos consumidos e valorizando uma vida egoísta, individualista e momentânea. Somos uma espécie cooperativista, foi assim que chegamos até esse ponto da evolução. Concordo que desde o início da nossa jornada na Terra desperdiçamos muito, mas acredito que somos capazes de retomar uma existência mais digna para nossa espécie e para todos os outros seres vivos. 

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